29/12/2016

24 de dezembro


24 de dezembro
alguns caroços de cereja em cima da mesa
decomposição constante de tudo aquilo que vive em silêncio
dedos ainda úmidos
a boca abre e fecha
em silêncio
pensa de novo

24 de dezembro 
não tem luz e não tem calor e não tem cheiro
de nada
                                                                                              aqui dentro (de mim)
vinte e quatro horas eu passo pensando em tudo que
forma teu corpo
carbono
caroços
laços
que se enroscaram e dão origem a sua voz
quase engasgada com certas coisas
quase prestes a gritar por causa de outras certas coisas

24 de dezembro
bate um vento frio
e o meu corpo que tá sempre nu pra vida que ta sempre livre de coisas que o
sufocam
(menos você)
arrepia
chega doer um pouquinho
eu encolho
                                                                                              chego tarde em mais nos teus pensamentos
o ar abafado da noite limita a transmissão de pedidos de socorro
e todos os dias eu tento te alcançar
seja pelas palavras
seja pelo choro
seja pelos dedos
que quando esticados não conseguem ultrapassar o clitóris
e tem algo de místico que ronda meu próprio corpo
porque ele se rende a certas mentiras
e luta contra certas verdades

24 de dezembro
percebo que as coisas que me formam são:
carbono
caroços
e laços
que se enroscam e não me deixam te enxergar com clareza

24 de dezembro
não sei mais qual é o seu gosto
e a água que lava meu corpo arranca de mim a trajetória dos teus dedos
essa pele branca disfarça a camada de pecado quase
invisível
a olhos nus
mas quando a gente tá junto não tem como negar
não tem como dizer que não percebeu
algo em mim se demonstrar
e cair
e expor
essa camada grossa de pensamentos e atitudes e medos
contraditórios
que se perdem nos meios mais obscuros das escrituras sagradas

de santo
nossos corpos não tem nada

24 de dezembro
faz muito tempo que não enxergo o mundo com os meus olhos miúdos
faz muito tempo que
                                               eu nem sei o que dizer
a idade nem pesa nos ombros a idade nem aparece no espelho a idade nem condiz
com os medos já impregnados na mente
com os medos que corroem os dedos
medo: morrer sem nunca ter me tido por completo
medo: morrer sem nunca ter me tido
medo: morrer sem nunca
medo: morrer
depois de você

24 de dezembro
os caroços de cereja caem no chão
(por causa do vento forte que vem da janela escancarada)
e eu até consigo escutar um sussurro seu dizendo
“tem certeza?”


24 de dezembro. A melhor resposta continua sendo o silêncio


(um poema da Aranha, minha outra metade)

30/10/2016

Água.

você faz uma simples
corrente de água
virar mar
dentro de mim
                     tô tendo que segurar nas bordas do meu ser
                     pra não morrer afogada

16/10/2016

Sem título.

O que me preocupa são esses seus olhos
Eles me fazem perguntas sem pontos de interrogação

09/10/2016

Entrelaçar de dedos no meio da noite.

Esqueci de te dizer que
O momento mais feliz
Foi quando nos encontramos
Cruzando a vida um do outro
Sem nem antes perceber que o futuro
Tinha uma lâmpada prestes a queimar
Lá no fundo
[de nossas almas

Eu tive que te recriar na minha mente pra poder dormir bem
                Teu colo reconforta minhas dores
                Nas costas na alma nas juntas
                Nas vontades que surgem e      somem
                                                                                             
Teu toque arranca de mim
todas as vozes que ficaram
sufocadas
Teu toque arranca
                uma a uma
Todas as minhas vontades de gritar
Teu toque desarma a bomba que existe dentro de mim

Mas as vozes
Que não param de cochichar
Dão ao teu silêncio
O pior dos significados
E dão aos teus olhos cansados
Um espelho que reflete minha
Alma
                Escondida no canto do quarto
                Ninguém consegue ver
                               Meu choro inunda o travesseiro

E você não sabe
Que ando procurando teus sorrisos nos álbuns antigos que já estão amarelados
E você não sabe
Que ando procurando em mim mesma algum motivo pra dizer
Adeus
E você não sabe
Que cansei de me carregar sozinha e agora deixo pra você
o peso do meu medo

Os trilhos
Os metrôs
Os espaços que ocupamos
Agora carregam a lembrança de nossas vozes
                Que quando muito altas assemelham-se a um pedido de socorro
                E quando muito baixas assemelham-se a uma risada

o mundo nos quebrou e algumas partes tuas ainda encontram-se
                                                                                               perdidas

27/09/2016

essas janelas que
brilham longe de mim
que tipo de vida elas escondem?

luzes que brilham longe de mim
                [seriam as estrelas janelas brilhantes?
seriam a casa de alguém que não consegue dormir?]

minha janela é  miúda
só minhas mãos passam por ela
e passam porque precisam sentir a chuva
                cair
                               gota por
                                               gota

será que essas janelas brilhantes enormes distantes
te permitem tocar as nuvens
                uma por
                               uma
                                               ?

05/09/2016