29/12/2015

Só mais uma.

é só mais uma chuva de verão
dessas
que molham os poros da pele e fazem a gripe se aproximar

é só mais uma chuva de verão
dessas
que molham a terra
e substituem a falta de cheiro do asfalto molhado

é só mais uma chuva de verão
dessas
que fazem morros deslizarem

é só mais uma chuva de verão
meus óculos acabaram molhados

03/12/2015

Repetição.

Eu to cansada de digitar essas palavras que são sempre iguais
Porque depois de um tempo isso se torna tão constante
Que os sentimentos são os mesmos
E a gente passa a se cansar mais rápido
E o som do sabiá nem mesmo alivia a dor do coração apertado que sangra tanto
O sangue torna-se A, B, C
E de repente até a letra F tá lá
Embutida nas suas correntes sanguíneas
Bombeando
E
Bombeando
Indo para cada canto do seu corpo
O cérebro se confunde e faz do C o teu F
O teu G
O teu N
O teu H
Todas as letras do alfabeto estão lá embutidas
Em cada um de seus neurônios
Em cada um dos seus pensamentos
Eu me pergunto se algum dia isso vai parar
Se esse verde que preenche cada uma das minhas manhãs vai parar de existir
Se eu finalmente vou poder ir para casa
Para deitar na minha cama
Para sentir o teu cheiro
Para ficar lá sentada
Chorando
E chorando
E gritando
E falando
E dizendo alto
Baixinho
Sussurrando de baixo do cobertor
Que eu to com saudade
Que eu to querendo falar com você
Mas a vergonha é tamanha
Que eu não consigo dizer nada
Só pergunto como você está
O que anda fazendo
E as respostas são sempre as mesmas
Eu to bem
Ah, eu não to fazendo nada demais
E é sempre
É sempre assim que as nossas conversas são
Cheias de paradas
E respirações não desejadas
E choros internos
E as risadas na mesa da cozinha são sempre indesejadas
E eu saio de fininho
Andando devagar
Para que ninguém ouça os meus paços
E me siga
Porque eu quero sentar no chão
Junto aos besouro e bichos
E coisas estranhas
E chorar junto a eles
Sempre
Sempre assim
É sempre sobre lágrimas
Sobre despedidas
Sobre amores não correspondidos
São sempre duas horas da manhã
Quando bate a inspiração e eu consigo vomitar para fora tudo isso que tá guardado
Dentro de mim
Mas a gravação é ainda pior
Porque a minha voz tá mostrando tudo o que eu to sentido
E quando eu ouvir isso de novo
Eu não vou querer passar para o computador
Porque vai ser trabalhoso demais
Eu só vou querer ficar sentada na cama
Ouvindo
De novo
E de novo
E de novo
E é sempre assim
É tudo repetido
Sempre várias vezes
Para ver se passa
Para se acostumar com a dor
Mas tá tudo errado
Porque a dor não passa
Ela torna-se parte
Um pedaço do meu coração tornou-se preto
Hoje
Ontem
Desde o dia que eu te conheci
E vem sendo sempre assim
Preto
Escuro
Ele solta pus
E odores ruins
E eu não sei mais o que fazer com ele
Eu tentei tirar
Tentei
Eu tentei cortar
Tentei
Eu tentei de tudo mas não resolveu
Porque essa parte preta ganhou o teu nome

E eu nem sei mais o que fazer

02/12/2015

Sangrar sem medo.


Palavras espanholas apagadas com a borracha da tua lembrança
Escreve nas mãos poesias com o nome dela
Caneta azul:
Os olhos nas mãos
Minha poesia é tão medíocre que sai com água e sabão barato
A mão arde, as palavras navegam na corrente sanguínea
Biologia do inferno
Estudos matinais
Os abraços apertados vomitam tanto que a bile torna-se vermelha
Sangue de útero
Sem cheiro
Sem medo

30/11/2015

Poder da natureza.


As unhas roídas. Os lápis curtos que fazem com que as peles dos dedos rocem nas folhas do caderno machado de café. As pequenas coisas do mundo são motivos suficientes para dores nos cotovelos. Não chega nem perto de ser inveja porque não acredito mais que... Só não acredito. Deixei ontem de acreditar nas sereias porque durante o banho bati com a cabeça na prateleira e não teve cantoria nenhuma quando o ralo aberto me levou até os mares nunca desbravados da Terra do Nunca. E aquela caneta preta de ponta fina roubada no intervalo pinta cada um dos seus poros e eu só assisto de longe o assassinato das baleias que estão presas nos olhos escuros (e pequenos) da menina. É o poder da natureza, o poder de ligar todas as folhas verdes na copa das árvores e de transformar poluição em inspiração.

27/11/2015

O pai vê as luzes acessas?


Os copos de água nas mãos fazem as moléculas do corpo se quebrarem e se tornarem órfãs. As ligações são covalentes, constantes e sempre começam com: após o sinal diga o seu nome e a cidade da onde está falando. Lá no orelhão os números das prostitutas estão espalhados. Luana, Adriana, Carolina. Safada, Delicia, Gostosinha. Come com os olhos e sem talheres os rostos e pernas e pés e orelhas e melecas de nariz. A infantilidade faz o número da idade brotar no meio da testa. Não tenho RG, não sou de menor e vivo logo ali moço. O moço finge que acredita e pede: cuidado moleque. Mas é claro. Cuidado. Cuidado com os homens. Cuidado com os banheiros. Cuidado com as coisas que sufocam. Cuidado. Muito cuidado. Muito bem cuidado. Diz a mãe para o pai do menino. Ele finge que não escuta. Vai levar o filho consigo. Cuidado meu filho, a mãe chora. Cuidado com as bicicletas. Cuidado com as mulheres. Cuidado com o mundo. Ela o abraça. Me liga pelo orelhão que fica perto da casa de teu pai. Estarei esperando todos os dias. Cuidado com os números.

- Maria Aranha.

25/11/2015

Cuadrado.

Circunferências
Ao redor do corpo
Navegante
Sóbrio
Amador
Doente por
Amar
Dormir
Aspirinas
Vesícula
Inflamada
Doação de
Amarguras
Doação do próprio
Eu
Ulisses já sabia que saudade era

Saúde

24/11/2015

Resfriado.

Roça os mamilos rosados
nas costas nuas do amado
deitado no palco repleto de
própolis
é culpa do gotejar
contou 30 gotas
bebeu só 24
já bebi da urina que goteja dos seus cílios
gotas pequenas e densas que caem no chão
as flores amarelas estão em todo lugar
é só tylenol

- Maria Aranha

22/11/2015

Domingo, dia de almoço em família.


Hoje é domingo. Dia de almoço em família. Os maridos saem cedo de casa, depois de terem fodido a amante no banco de trás do carro no sábado à noite, e vão até o mercado mais próximo para comprar: ovos, leite, alface orgânico, meio quilo de filé de frango e alguns doces para as crianças que aguardam em casa. Os tios, tias, avós, avôs, primos e primas virão nessa tarde para comer a comida regada por lágrimas da esposa e a filhinha até usaria sua sandália nova, se não fossem pelas brigas cotidianas que fizeram o cachorro da família devorar cada tirinha da sandália. Um sorriso bonito pede a tia velha que tem nas mãos um celular novo que só comprou para mostrar para as primas que anda muito bem obrigada. A família se espreme na parede branca que tem no canto uma mancha de tinta guache azul que acarretou muitos puxões de orelha para o filho mais novo. Todos colocam no rosto um sorriso esquisito. Isso aí, essa é a famosa família brasileira que tem no canto dos lábios a maionese feita com ovos estragados porque o marido esqueceu-se de acordar cedo naquele dia, já que adormeceu no banco do carro e o cachorro foi até lá com as tiras da sandália e a mãe chorou em casa e a tia trouxe o celular e a foto não foi tirada. O menino pequeno acorda com um pesadelo. Ufa, hoje é segunda.

- Maria Aranha,

19/11/2015

Odores no sábado.

O cheiro de cigarro e sabão de coco embalam os sábados que escurecem pouco a pouco. A destilação dos cheiros é inexistente e por isso os odores penetram nos neurônios e assim, pouco a pouco, as almas saem dos corpos e passam a navegar nas ruas que perderam as luzes de natal porque foi nesse ano, em 2015, que o papai Noel morreu. Baleado pelos terroristas padeceu nas ruas de Paris e mais tarde, quando voltou para a sua cidade natal, Minas Gerais, teve seu corpo lavado pela lama. Culparam os pobres elfos e eles tentaram se proteger dizendo: a culpa é dos humanos. E foi assim que a guerra começou. Os amargurados corações preencheram todo o mundo afetando até as formigas trabalhadoras.

07/11/2015

Bebê do amor.


O cavalo me levou até você e eu desci sem medo do animal selvagem que não parava de correr ao seu redor. Levei uma pancada com as suas palavras e os olhares trocados na mesa são supérfluos com o passar do tempo. A imensidão do meu ser derrama nas bordas do teu corpo que está gélido e morto. De súbito vozes que se assemelham à sua surgem e eu não sei mais como identificar meu amor por você. A saudade derrama com as gotas de água cheias de cloro. Quero morrer afogada com as algas roçando nas minhas pernas nuas e sangrentas que passaram tardes e tardes expostas ao Sol. Sangue escorrendo, um quadro se formando e assim surge o nosso filho. Pequeno bebê que tem o cordão umbilical emaranhado em raízes podres da árvore que foi plantada pelo nosso amor. Morte.

- Maria Aranha,

02/11/2015

Tá difícil de entender.

Tá difícil de entender
Que quando o Sol nasce
E as espumas dos horizontes caem sobre o teu corpo
Deitado na lama
Escura
Preta
Cheia pedregulhos
É tudo questão de tempo
De percepção
De entender que nada é assim
Tudo não passa de um clarão
Um clarão que tomou a alma
Que tomou eu
Que me tomou
O português não ajuda
Muito menos o inglês, o francês, o espanhol, o alemão
Eu não sei idioma algum
Eu só sei o idioma da tua voz
Eu perdi as palavras
Eu perdi você
Eu me perdi
E agora nada mais adianta
O espelho
O reflexo
A voz
Você
As mensagens
De noite as lembranças
De manhã nada
vazio
Estar solitária
No caminhar
Num pisar dolorido
No joelho quebrado
Torto
Acabado
Cheio de problemas
E
Problemas
E sonos
E olheiras
E vontade de dormir
E dormir a tarde inteira
Agora
Nada mais adianta
Nada nunca adiantou
Só eu
Aqui
Sentada
Na cama
Parada
Gravando
Falando
Para as paredes
Que todo esse tempo
Tua presença era necessária
Agora já não é mais
Porque eu
já não existo mais

01/11/2015

Itinerários

Itinerários
repletos de poesias
que navegam pela mente
e as pessoas
todas
possuem a sua face
e quando acho que te encontrei
percebo que os olhos faltam no rosto do moço com o
teu
cabelo
e não é mais o teu cabelo lá
é apenas um amontoado de flores rosas
rosadas pelo amor
rosadas pelos tapas aflitos na cabine do banheiro
os espelhos quebrados
pintados com lágrimas
arranham minhas costas nuas
e a pele  branca torna-se azul
azul cor de
mar
oceano
você é
mar
oceano
imensidão
que naufraga minha alma

o navio ficou em casa

31/10/2015

Café de ontem.


Você se esqueceu de tirar o café de ontem da garrafa. A meditação não serve para almas sem café. Nunca respirou tão alto. Os segundos e minutos passam. São cinco. Cinco minutos. Você aprendeu a viver só cinco minutos. As palavras tornam-se afobadas e as mensagens, cujo destinatário é desconhecido, são repetitivas. Mas agora, acorde. O Sol está nascendo no horizonte e o chá aguado aguarda. A garrafa quebrada em vários pedaços rompeu os ligamentos dos pés cansados e doloridos. E as unhas dos dedos mindinhos foram roídas por vermes que se fascinam com o caminhar mirabolante dos seres humanos. E nesse instante uma nuvem repousa sobre seus olhos. É difícil de enxergar a pomba, não te culpo pela morte do animal porque talvez eu seja ela: a pomba esmagada pelo seu tênis sujo de coco de cachorro.

21/10/2015

Cor de tempo.


Poesias pintadas
Palavras desejadas
Você no meio da sala
Os relógios pararam
Eu já estou com 60 anos
Carrego nos braços fracos os filhos abortados
pelo nosso amor inexistente
Dependência de
presença
Quando as vozes se calam na fila do banco
E a música volta a tocar no canto da sala
Eu me esqueço de que por muito tempo
o tempo existiu
e agora choro
tanto
que os ponteiros sentem pena
param de rodar
o mundo para
A barata em cima do gira-gira
As folhas que rodopiam
A bailaria que rodopia
Meu coração rodopiou
Caiu
Morreu
Engasgou-se com o sangue
Cor de gira-gira
Cor de

Tempo

20/10/2015

T


Transbordam
Tampas de bueiro
Tocantins
Trocou
Tulipas por
Talentos
Tantos eram que
Torraram dentro do forno aquecido
Tarantino não quis gravar
Tutores de atores sem pratica
Tropeçavam em saltos altos
Tontos ficaram quando a câmera atacou
Talvez quisessem se esconder, mas preferiram
Todos
Tocar em corpos alheios enquanto
Torradas com manteiga eram mordidas por criancinhas,

Tadinhas.

19/10/2015

Imagina.

Imagina seus poemas
Inscritos
Em circunferências
Andantes
Que caminham pela Avenida Paulista
Procurando no meio da calçada
Um pedaço de pão de queijo
Junto com um copo cheio de café amargo

Imagina agora a cana de açúcar
Que antes era chupada com gosto
De baixo do pé de manga
Na fazendo do seu avô
Se metamorfosear em álcool
Combustível para automóveis
Combustível para alma

Agora imagina só
A sua vida depender daquilo
Porque aos poucos o tempo transforma as pessoas em objetos
Ele se torna aquilo
Ela isso
E você vira o moço
Suíço
Cortado em diversos pedaços pela esposa
Amargurada

18/10/2015

Toda nudez será castigada

Toda nudez será castigada
Toda dependência será desfeita
Toda menina acima de 9 anos será assassinada
Toda cerveja bebida será vomitada
Tudo será desfeito
Um novo começo vai começar

Conte até dez comigo
Só não conte os números primos
porque esses não podem ser divididos entre nós dois

Esquece, nós somos os números primos
Você não pode ser divido comigo
porque a solidão é atraente para você

Então deixe que eu vá para o banheiro
e chore sentada no vaso amarelo
tudo que você nunca chorou

A música carregará nos braços os meus soluços
A moça da faxina não virá secar minhas lágrimas
E você tomará chá gelado na mesa ao lado
Ela estará sentada,
rindo
E você
perdido,
sem sentido


Choraremos como bebês que acabaram de nascer.

15/10/2015

Saia dos nove anos.


O carro está andando devagar
Aproveita para se jogar
O caminhoneiro adoraria ver seu corpo nu deitado no banco ao lado
E o motoqueiro adoraria passar a moto por cima da sua cabeça

Pequenas
Eram as mãos
E as palavras
Monossilábicas
Não ditas
Protegidas por memórias

O pendrive já está na sua alma
Ele é azul
Verde
Cor de sabão derretido na saboneteira
Não tem como escapar
Já sei que fotos você tatua na virilha quando ninguém vê
Tá difícil de acreditar?
Então venha um dia aqui em casa
Preenchi o quarto dele com fotos suas
Oh, não faça essa carinha
Você adoraria ver o que eu fiz com ele
É claro que cortei cada dedo
Sim, os mindinhos também
Acha pouco?
Você deveria ter visto ele gritar
E suplicar
Para poder te amar
Alegou que eu era culpada
Do estupro
Do amor necessitado
Vê se pode?
Sou apenas uma saia curta barata que sua mãe te deu no aniversário de 9 anos

- Maria Aranha,

14/10/2015

Presença.

A chuva e a pele branca embalam nossa alma
Debaixo do guarda chuva o abraço se encerra com o som da buzina
Tua voz espalhada pela sala de teatro
Tu
Sentado na cadeira enquanto morde o cadarço despedaçado

Possuir
Nunca te tive
Nunca te terei
Vejo teu reflexo
Mas não sinto teu calor tocar no meu rosto
Que agora despenca no choro guardado entre músicas antigas
E palavras tuas empacotadas em papéis de bala

Bancos
Tua voz
Sorriso
Lembrança
Amar
Chorar
Perco-me nas imensidades do teu colo
Negado
Rejeitado
Necessitado
Eu necessito

O milagre que nunca chega
Tua boca que se nega a dizer
Meus ouvidos exigentes

Mas agora
Espero
Aqui
Sem exigências

Tua presença

13/10/2015

Fornecer rosas.

Branco. Palidez. A cortina branca fornece o Sol. O Sol fornece vitamina D. A menina fornece pesos para as costas dos desconhecidos. Veias escuras que descem e sobem o corpo. Blusa branca suja de sangue que veio por causa do grito na noite passada. Livro em cima da cama, companhia nas horas vagas. O ônibus anda devagar, os braços adormecem com a música que ele canta. Samba. As rosas não falam. O Brasil não concede as melhores almas para os apaixonados. O Brasil não concede as melhores colheitas para os poetas. O Brasil não concede as melhores marés para aqueles que adoram se afogar. Eu não concedo nada para o Brasil, o Brasil só me concede ilusões, mas amo o Brasil e o Brasil se torna surdo. Poemas na parede, boa noite, durma bem, dormir depois de beber tanta água: é isso que acontece depois que sua mãe não para de fazer queixas e o quarto se torna um local abafado para se esconder.

07/10/2015

Getúlio.

Gestantes
Esperam
Torpedos
Ultrassom
Lindos embriões
Inseguros
Óvulos
Vazios
Ardor na vagina que
Rasga
Gritos
A menina
Saiu

06/10/2015

05/10/2015

Quatro horas.


quando os ouvidos cheios de urucum
esquecem de tirar o vermelho arredondado das profundezas do teu ser
você para de olhar
seus olhos deixam as órbitas pretas caírem no chão
e você passa a ter medo de ficar de baixo da cama chorando baixinho
os soluços que antes te pertenciam
agora fazem parte das memórias de sua mãe
pobre de sua mãe
não tens vergonha de fazer esse tipo de coisa?
ah, chega de choros
de vontades exageradas
chega de viver dentro de casa
chega de ver as flores voarem para longe de você
engole os urucuns
engole as flores cheias de espinhos
engole suas lágrimas ácidas
engole tudo
mas não engole você
porque você
nem mesmo você
merece ser engolido
merece ficar aqui
à mercê de problemas
de ventos fortes
de chuvas sujas
de marés cheias de algas podres
merece milhares de coisas
mas não merece o nada
o vazio não mais te pertence
pertence ao Deus dos céus
ao Deus que você insiste em acreditar
por isso deixa de ser essa flor deitada no chão barrento
arranca tuas raízes da cabeceira da cama
e vai para o deserto
para algum lugar longe
qualquer lugar
e se você estiver com problemas para caminhar
apenas se imagine lá
deitado em uma cadeira de sol
torrando por entre as marés frias e quentes do oceano recém inventado
quando a chuva cair e você começar a ser engolido pelo ralo no canto do oceano
o relógio anunciará:
são quatro horas
da tarde.
tarde
demais.

04/10/2015

Domingo gira-gira.


O gira-gira
que gira
colorido.

O gira-gira
que gira
a criança enjoada.

O gira-gira
que gira
me deixa enciumada.

O gira-gira
que gira na noitada
se perde nas palavras
da amada.

Giro giro
no gira-gira.
Caio no chão
do gira-gira.
E por fim
giro giro
no mundo do girar.

03/10/2015

Hospitalizar.


Lá, sentada, contando as gotas do remédio que caem no rosto da paciente morta. Epitáfio. Ruídos, sua voz misturada com os gritos da moça que pari na sala doze. Estou na sala ao lado, grito, giro, tiro a roupa, e você? Caminha solitário pela rua, melhor, caminha pela avenida ao lado de minha casa. Quando a vida te transforma em poeta a sua voz acaba, e eu aprendi a ser poesia para te ouvir sussurrar baixinho uma música cansativa que embala o momento cheio de lágrimas e gritos e nascimentos e parimentos e sentimentos, porque eu não estou aí, estou na sala onze. Pelada. Sem nada. Sentada na maca com uma roupa bizarra. Você, na cama, recolhido, com as costas na parede fria pintada com um tom de azul estranho. Gosmento. Naquela casa sua voz se torna eco dentro de minha mente cheia de tons de rosa e Santos. Santos mandou águas frias pelo envelope azul marinho. Azul cor dos seus olhos. Eu recebi a carta e respondei sem palavras. Soprei no seu ouvido vozes desconhecidas. Despedida. Não quis respostas quis cervejas geladas, amargas. Minhas memórias possuem gosto de cerveja salpicada com sangue fresco da moça do lado esquerdo. Caminhando pela rua tropeço na pedra que explode em seu formato. Você vira asfalto, manga suja de cerveja, sorriso esquisito, grunhido nas caminhadas pelo condomínio. E agora nada mais adianta. Você está em todo lugar.

02/10/2015

Mulher.


Eu me percebi mulher
quando o sutiã começou a incomodar;
o olho à lacrimejar;
e a pele a enrugar.

Comecei a amar
e então
me vi mulher:
iludida,
humilhada,
desesperada.

Já tinha parado de sonhar
em me casar,
então passei a estudar
e a lutar
para finalmente
pensar.

28/09/2015

Pezinhos


com os pezinhos lavados
os seios soltos
e uma calcinha branca cheia de pontinhos vermelhos
repousa sobre a cama
com seus 13 aninhos
a menina coberta pelo cobertor das Meninas Super Poderosas

na mente
sonhos eróticos
com um garoto
metamorfoseado em palavras
uma canção de ninar

o sono invade a menina
tomando sua pureza
que se misturava com os anseios da juventude
com as palavras gélidas do amado
deitado
parindo a lua por entre as pernas peludas

nada mais adiantava
a música na estrada ilustrava sua vontade confusa
escondida atrás do sutiã amarelo apertado

de noite
quando ninguém mais via
tirava a blusa com cuidado e libertava o corpo
sentindo o calor do próprio sangue
escorrendo por entre os seios

pelada
largada na cama
tomava coragem e sujava todos os absorventes com palavras
não mais sangue
B positivo

positivo era o vazio cheio de beijos não correspondidos

20/09/2015

Argentina.


Manhã azulada por sua blusa
Argentina! ela gritava.
O poste de luz que piscava
Decidiu guardar para si a memória
Do abraço perdido no meio da noite fria
Decidiu engolir a pizza esquecida na mesa da cozinha
Decidiu se olhar no espelho do elevador para ver seus olhos gritarem:
- Argentina! DE NOVO NÃO!

Quando o passaporte amassado parecia ter se cansado
Mais uma viagem foi marcada
No nome de uma desconhecida
No nome de uma tal de Maria
- Olá, Maria. O que deseja?
Ela não desejava nada
Na verdade desejava ficar sentada com um sorriso de orelha a orelha
Pulava pela sala e encenava igual uma pobre coitada
Maria não era mais mãe de Jesus

Os pés já estavam cansados
Surrados pelos amores não mais duradores
Perturbadores
E quando a última gota da bebida amarga desceu por sua garganta fechada
Ela não acordou
Nem se endireitou
Deitou no chão
Mais uma vez

Ela nunca deveria ter abandonado Argentina

13/09/2015

Ribeirão Preto.


Eu não tenho uma foto daquela casa
Não tenho falta daquela casa
Só tenho o cheiro daquela mancha
Que ficava na entrada da casa

Eu comi uma amora
Eu virei Branca de Neve
Eu vi a vizinha chorar
Eu entrei na piscina
E deixei meu corpo gritar

Preenchi a alma da casa
Comprei flores vermelhas
Vi mamãe fingir um sorriso
Ouvi a buzina da vã escolar

Esqueci de colocar o cinto
Cai em um abismo
E quando cheguei em casa
Chorei com um suspiro

Não queria aceitar
Que um dia papai
Iria se revelar
E com a ameaça do soco
Eu iria acordar

Acordei por mamãe
Acordei por caca
Acordei por mim
E pela casa

Deixei meu corpo tremer
Deixei meu corpo derreter
Ao perceber que a verdade
Sempre fora uma bela princesa
De mascara

Quando acordei
Sonhei
E tentei dizer que eu
Ainda amava
O belo
E nunca esquecido
Ribeirão

Preto

11/09/2015

Água de coco nas nuvens azuladas.


O frio sobe por minhas pernas
encontra abrigo por entre minhas entranhas
e se aproveita da água de coco que insisto em tomar,
apesar de odiar.

Meus olhos pesados.
Meus olhos cansados.
Meus olhos apaixonados,
por você
e por mais ninguém.

Encontro no meu soluço,
desencantado,
as palavras certas
para dizer para meu
amado.

O sol brilha ao meu lado.
Minha lua cantarola uma música baixa,
e eu me deito na terra molhada
esperando por uma rajada
que me leve para tua morada.

09/09/2015

Girassóis perdidos.


Com uma faca de cozinha
já presa na manteiga
cortei minha mente
em quatro pedaços.

Sem força
perdi o braço
e um papel amassado
surgiu no meu terraço.
A chuva entrou nas palavras
A tinta preta escorreu no ralo
A tartaruga se escondeu
com medo do raio.

Sem antes de acordar
cavei um buraco
na terra molhada,
e o girassol
que antes vivia
agora caia
no chão
perdendo seu amarelo
cor de sabão.

As nuvens
me olhavam
e provavelmente
julgavam.
Sabiam agora que eu,
era na verdade,
uma assassina
de girassóis perdidos
e desinibidos.

08/09/2015

Estarei no Japão antes do Sol virar carvão.


As gotas d’água da chuva
queimaram minha pele.
Me deixaram sangrenta,
morta,
e fria
na praça da esquina.

O doce que comia
se engasgou
com as palavras
que eu lutava
em dizer
para as nuvens
que teimavam
em se mover.

Corri na ponta dos pés.
Cai no bueiro sujo.
Virei apenas uma viagem
pela sujeira das passagens
de avião.
Pelos ratos passei
e lá fiquei.
Ofegante
e desgastante era
a vida
que fora
e não era mais
minha.

Com os cabelos molhados
os pés encharcados
deitei-me.
O barulho das buzinas
O mal cheiro do seu cigarro
O vomito da criança
Agora,
não me atormentavam.

Meus ouvidos se encheram
com a água
podre e mijada
negada pela sociedade
mente fechada.
Fechei os olhos
deixei meu corpo ser levado
e assim acreditei que chegaria
no Japão

antes do Sol virar carvão.

07/09/2015

Aranha louca.


Quero tirar desse meu peito imundo e cheio de culpa os sentimentos nessa quinta-feira fria. Tiro esse meu sentimento ridículo, tiro essa minha expectativa surreal, tiro meu amor por você. Sou apaixonada pelo meu próprio ódio, então só deixe que eu te ame. Sou ridícula por amor. Sou ridícula por essa aranha que sobe no meu corpo e toca no meu mamilo arrepiado. Sou a aranha que mata seu amado, e que se enraivece. Sou a aranha que te ama.

Me perco. Sou perdida. Eu perdi minha própria morada. Moro debaixo dos seios de minha mãe, que agora já não me dão a vida. Moro dentro do meu útero infantil. Moro dentro de mim. Tenho os cabelos soltos, as unhas quebradiças e teu sorriso tatuado nos meus perfumes. Sou apenas a louca apaixonada. Sou apenas uma aranha. Ando pela casa, deixo recados, te mordo na madrugada, te amo no amanhecer. Sou a verdade escondida nas patas de uma pobre e desprezada aranha.

Com os olhos pretos me nego a deixar o Sol entrar. Me encontro dentro do seu lar, e dentro do seu lar encontro o amor roubado. São dos amores roubados que vivo. Vivo de tudo aquilo que é roubado. Roubo os insetos, roubo as vidas, roubo tuas mães, roubo tuas putas. Sou apaixonada pelas putas, encantada pelos príncipes. Louca e arranha. Aranha louca.

- Maria Aranha,

06/09/2015

Sem nome. Seu nome.


Nu
Insensível
Cortejando
Olhares
Lunares
Amorosos
Subjetivos

Esperando
Luizas
Irrelevantes
Salpicadas de
Amor

Gastava
Aventuras
Burras
Rindo.
Itália,
ela se fora.
Levando consigo
A arte do amar

Tava longe
Amor.
Risonha
Saltitante
Irrelevante
Luiza,
Ah, já se fora

E agora
Duvidava.
Um urso
Amarrava seu mundo
Rabugento
Doía
Olhar para frente
Olhar para o mar