31/10/2015

Café de ontem.


Você se esqueceu de tirar o café de ontem da garrafa. A meditação não serve para almas sem café. Nunca respirou tão alto. Os segundos e minutos passam. São cinco. Cinco minutos. Você aprendeu a viver só cinco minutos. As palavras tornam-se afobadas e as mensagens, cujo destinatário é desconhecido, são repetitivas. Mas agora, acorde. O Sol está nascendo no horizonte e o chá aguado aguarda. A garrafa quebrada em vários pedaços rompeu os ligamentos dos pés cansados e doloridos. E as unhas dos dedos mindinhos foram roídas por vermes que se fascinam com o caminhar mirabolante dos seres humanos. E nesse instante uma nuvem repousa sobre seus olhos. É difícil de enxergar a pomba, não te culpo pela morte do animal porque talvez eu seja ela: a pomba esmagada pelo seu tênis sujo de coco de cachorro.

21/10/2015

Cor de tempo.


Poesias pintadas
Palavras desejadas
Você no meio da sala
Os relógios pararam
Eu já estou com 60 anos
Carrego nos braços fracos os filhos abortados
pelo nosso amor inexistente
Dependência de
presença
Quando as vozes se calam na fila do banco
E a música volta a tocar no canto da sala
Eu me esqueço de que por muito tempo
o tempo existiu
e agora choro
tanto
que os ponteiros sentem pena
param de rodar
o mundo para
A barata em cima do gira-gira
As folhas que rodopiam
A bailaria que rodopia
Meu coração rodopiou
Caiu
Morreu
Engasgou-se com o sangue
Cor de gira-gira
Cor de

Tempo

20/10/2015

T


Transbordam
Tampas de bueiro
Tocantins
Trocou
Tulipas por
Talentos
Tantos eram que
Torraram dentro do forno aquecido
Tarantino não quis gravar
Tutores de atores sem pratica
Tropeçavam em saltos altos
Tontos ficaram quando a câmera atacou
Talvez quisessem se esconder, mas preferiram
Todos
Tocar em corpos alheios enquanto
Torradas com manteiga eram mordidas por criancinhas,

Tadinhas.

19/10/2015

Imagina.

Imagina seus poemas
Inscritos
Em circunferências
Andantes
Que caminham pela Avenida Paulista
Procurando no meio da calçada
Um pedaço de pão de queijo
Junto com um copo cheio de café amargo

Imagina agora a cana de açúcar
Que antes era chupada com gosto
De baixo do pé de manga
Na fazendo do seu avô
Se metamorfosear em álcool
Combustível para automóveis
Combustível para alma

Agora imagina só
A sua vida depender daquilo
Porque aos poucos o tempo transforma as pessoas em objetos
Ele se torna aquilo
Ela isso
E você vira o moço
Suíço
Cortado em diversos pedaços pela esposa
Amargurada

18/10/2015

Toda nudez será castigada

Toda nudez será castigada
Toda dependência será desfeita
Toda menina acima de 9 anos será assassinada
Toda cerveja bebida será vomitada
Tudo será desfeito
Um novo começo vai começar

Conte até dez comigo
Só não conte os números primos
porque esses não podem ser divididos entre nós dois

Esquece, nós somos os números primos
Você não pode ser divido comigo
porque a solidão é atraente para você

Então deixe que eu vá para o banheiro
e chore sentada no vaso amarelo
tudo que você nunca chorou

A música carregará nos braços os meus soluços
A moça da faxina não virá secar minhas lágrimas
E você tomará chá gelado na mesa ao lado
Ela estará sentada,
rindo
E você
perdido,
sem sentido


Choraremos como bebês que acabaram de nascer.

15/10/2015

Saia dos nove anos.


O carro está andando devagar
Aproveita para se jogar
O caminhoneiro adoraria ver seu corpo nu deitado no banco ao lado
E o motoqueiro adoraria passar a moto por cima da sua cabeça

Pequenas
Eram as mãos
E as palavras
Monossilábicas
Não ditas
Protegidas por memórias

O pendrive já está na sua alma
Ele é azul
Verde
Cor de sabão derretido na saboneteira
Não tem como escapar
Já sei que fotos você tatua na virilha quando ninguém vê
Tá difícil de acreditar?
Então venha um dia aqui em casa
Preenchi o quarto dele com fotos suas
Oh, não faça essa carinha
Você adoraria ver o que eu fiz com ele
É claro que cortei cada dedo
Sim, os mindinhos também
Acha pouco?
Você deveria ter visto ele gritar
E suplicar
Para poder te amar
Alegou que eu era culpada
Do estupro
Do amor necessitado
Vê se pode?
Sou apenas uma saia curta barata que sua mãe te deu no aniversário de 9 anos

- Maria Aranha,

14/10/2015

Presença.

A chuva e a pele branca embalam nossa alma
Debaixo do guarda chuva o abraço se encerra com o som da buzina
Tua voz espalhada pela sala de teatro
Tu
Sentado na cadeira enquanto morde o cadarço despedaçado

Possuir
Nunca te tive
Nunca te terei
Vejo teu reflexo
Mas não sinto teu calor tocar no meu rosto
Que agora despenca no choro guardado entre músicas antigas
E palavras tuas empacotadas em papéis de bala

Bancos
Tua voz
Sorriso
Lembrança
Amar
Chorar
Perco-me nas imensidades do teu colo
Negado
Rejeitado
Necessitado
Eu necessito

O milagre que nunca chega
Tua boca que se nega a dizer
Meus ouvidos exigentes

Mas agora
Espero
Aqui
Sem exigências

Tua presença

13/10/2015

Fornecer rosas.

Branco. Palidez. A cortina branca fornece o Sol. O Sol fornece vitamina D. A menina fornece pesos para as costas dos desconhecidos. Veias escuras que descem e sobem o corpo. Blusa branca suja de sangue que veio por causa do grito na noite passada. Livro em cima da cama, companhia nas horas vagas. O ônibus anda devagar, os braços adormecem com a música que ele canta. Samba. As rosas não falam. O Brasil não concede as melhores almas para os apaixonados. O Brasil não concede as melhores colheitas para os poetas. O Brasil não concede as melhores marés para aqueles que adoram se afogar. Eu não concedo nada para o Brasil, o Brasil só me concede ilusões, mas amo o Brasil e o Brasil se torna surdo. Poemas na parede, boa noite, durma bem, dormir depois de beber tanta água: é isso que acontece depois que sua mãe não para de fazer queixas e o quarto se torna um local abafado para se esconder.

07/10/2015

Getúlio.

Gestantes
Esperam
Torpedos
Ultrassom
Lindos embriões
Inseguros
Óvulos
Vazios
Ardor na vagina que
Rasga
Gritos
A menina
Saiu

06/10/2015

05/10/2015

Quatro horas.


quando os ouvidos cheios de urucum
esquecem de tirar o vermelho arredondado das profundezas do teu ser
você para de olhar
seus olhos deixam as órbitas pretas caírem no chão
e você passa a ter medo de ficar de baixo da cama chorando baixinho
os soluços que antes te pertenciam
agora fazem parte das memórias de sua mãe
pobre de sua mãe
não tens vergonha de fazer esse tipo de coisa?
ah, chega de choros
de vontades exageradas
chega de viver dentro de casa
chega de ver as flores voarem para longe de você
engole os urucuns
engole as flores cheias de espinhos
engole suas lágrimas ácidas
engole tudo
mas não engole você
porque você
nem mesmo você
merece ser engolido
merece ficar aqui
à mercê de problemas
de ventos fortes
de chuvas sujas
de marés cheias de algas podres
merece milhares de coisas
mas não merece o nada
o vazio não mais te pertence
pertence ao Deus dos céus
ao Deus que você insiste em acreditar
por isso deixa de ser essa flor deitada no chão barrento
arranca tuas raízes da cabeceira da cama
e vai para o deserto
para algum lugar longe
qualquer lugar
e se você estiver com problemas para caminhar
apenas se imagine lá
deitado em uma cadeira de sol
torrando por entre as marés frias e quentes do oceano recém inventado
quando a chuva cair e você começar a ser engolido pelo ralo no canto do oceano
o relógio anunciará:
são quatro horas
da tarde.
tarde
demais.

04/10/2015

Domingo gira-gira.


O gira-gira
que gira
colorido.

O gira-gira
que gira
a criança enjoada.

O gira-gira
que gira
me deixa enciumada.

O gira-gira
que gira na noitada
se perde nas palavras
da amada.

Giro giro
no gira-gira.
Caio no chão
do gira-gira.
E por fim
giro giro
no mundo do girar.

03/10/2015

Hospitalizar.


Lá, sentada, contando as gotas do remédio que caem no rosto da paciente morta. Epitáfio. Ruídos, sua voz misturada com os gritos da moça que pari na sala doze. Estou na sala ao lado, grito, giro, tiro a roupa, e você? Caminha solitário pela rua, melhor, caminha pela avenida ao lado de minha casa. Quando a vida te transforma em poeta a sua voz acaba, e eu aprendi a ser poesia para te ouvir sussurrar baixinho uma música cansativa que embala o momento cheio de lágrimas e gritos e nascimentos e parimentos e sentimentos, porque eu não estou aí, estou na sala onze. Pelada. Sem nada. Sentada na maca com uma roupa bizarra. Você, na cama, recolhido, com as costas na parede fria pintada com um tom de azul estranho. Gosmento. Naquela casa sua voz se torna eco dentro de minha mente cheia de tons de rosa e Santos. Santos mandou águas frias pelo envelope azul marinho. Azul cor dos seus olhos. Eu recebi a carta e respondei sem palavras. Soprei no seu ouvido vozes desconhecidas. Despedida. Não quis respostas quis cervejas geladas, amargas. Minhas memórias possuem gosto de cerveja salpicada com sangue fresco da moça do lado esquerdo. Caminhando pela rua tropeço na pedra que explode em seu formato. Você vira asfalto, manga suja de cerveja, sorriso esquisito, grunhido nas caminhadas pelo condomínio. E agora nada mais adianta. Você está em todo lugar.

02/10/2015

Mulher.


Eu me percebi mulher
quando o sutiã começou a incomodar;
o olho à lacrimejar;
e a pele a enrugar.

Comecei a amar
e então
me vi mulher:
iludida,
humilhada,
desesperada.

Já tinha parado de sonhar
em me casar,
então passei a estudar
e a lutar
para finalmente
pensar.