03/10/2015

Hospitalizar.


Lá, sentada, contando as gotas do remédio que caem no rosto da paciente morta. Epitáfio. Ruídos, sua voz misturada com os gritos da moça que pari na sala doze. Estou na sala ao lado, grito, giro, tiro a roupa, e você? Caminha solitário pela rua, melhor, caminha pela avenida ao lado de minha casa. Quando a vida te transforma em poeta a sua voz acaba, e eu aprendi a ser poesia para te ouvir sussurrar baixinho uma música cansativa que embala o momento cheio de lágrimas e gritos e nascimentos e parimentos e sentimentos, porque eu não estou aí, estou na sala onze. Pelada. Sem nada. Sentada na maca com uma roupa bizarra. Você, na cama, recolhido, com as costas na parede fria pintada com um tom de azul estranho. Gosmento. Naquela casa sua voz se torna eco dentro de minha mente cheia de tons de rosa e Santos. Santos mandou águas frias pelo envelope azul marinho. Azul cor dos seus olhos. Eu recebi a carta e respondei sem palavras. Soprei no seu ouvido vozes desconhecidas. Despedida. Não quis respostas quis cervejas geladas, amargas. Minhas memórias possuem gosto de cerveja salpicada com sangue fresco da moça do lado esquerdo. Caminhando pela rua tropeço na pedra que explode em seu formato. Você vira asfalto, manga suja de cerveja, sorriso esquisito, grunhido nas caminhadas pelo condomínio. E agora nada mais adianta. Você está em todo lugar.

2 comentários:

  1. QUE TEXTO INCRÍVEL
    Ei, eu estava com saudades de visitar seu blog, dei uma sumida por um tempo mas estou de volta, viu? Sua visita é muito importante, se puder passar lá, ficarei grata.
    Beijos, Ariane

    www.diariodostreze.blogspot.com

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    1. Oi Ariane! Muito obrigada. Acabei parando de acompanhar os blogs que antes acompanhava, mas vou tentar voltar!

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