05/10/2015

Quatro horas.


quando os ouvidos cheios de urucum
esquecem de tirar o vermelho arredondado das profundezas do teu ser
você para de olhar
seus olhos deixam as órbitas pretas caírem no chão
e você passa a ter medo de ficar de baixo da cama chorando baixinho
os soluços que antes te pertenciam
agora fazem parte das memórias de sua mãe
pobre de sua mãe
não tens vergonha de fazer esse tipo de coisa?
ah, chega de choros
de vontades exageradas
chega de viver dentro de casa
chega de ver as flores voarem para longe de você
engole os urucuns
engole as flores cheias de espinhos
engole suas lágrimas ácidas
engole tudo
mas não engole você
porque você
nem mesmo você
merece ser engolido
merece ficar aqui
à mercê de problemas
de ventos fortes
de chuvas sujas
de marés cheias de algas podres
merece milhares de coisas
mas não merece o nada
o vazio não mais te pertence
pertence ao Deus dos céus
ao Deus que você insiste em acreditar
por isso deixa de ser essa flor deitada no chão barrento
arranca tuas raízes da cabeceira da cama
e vai para o deserto
para algum lugar longe
qualquer lugar
e se você estiver com problemas para caminhar
apenas se imagine lá
deitado em uma cadeira de sol
torrando por entre as marés frias e quentes do oceano recém inventado
quando a chuva cair e você começar a ser engolido pelo ralo no canto do oceano
o relógio anunciará:
são quatro horas
da tarde.
tarde
demais.

2 comentários:

  1. Que poesia linda, maravilhosa, adorei!
    Beijos,
    Gabbi
    https://dearlysandra.blogspot.com.br

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