30/11/2015

Poder da natureza.


As unhas roídas. Os lápis curtos que fazem com que as peles dos dedos rocem nas folhas do caderno machado de café. As pequenas coisas do mundo são motivos suficientes para dores nos cotovelos. Não chega nem perto de ser inveja porque não acredito mais que... Só não acredito. Deixei ontem de acreditar nas sereias porque durante o banho bati com a cabeça na prateleira e não teve cantoria nenhuma quando o ralo aberto me levou até os mares nunca desbravados da Terra do Nunca. E aquela caneta preta de ponta fina roubada no intervalo pinta cada um dos seus poros e eu só assisto de longe o assassinato das baleias que estão presas nos olhos escuros (e pequenos) da menina. É o poder da natureza, o poder de ligar todas as folhas verdes na copa das árvores e de transformar poluição em inspiração.

27/11/2015

O pai vê as luzes acessas?


Os copos de água nas mãos fazem as moléculas do corpo se quebrarem e se tornarem órfãs. As ligações são covalentes, constantes e sempre começam com: após o sinal diga o seu nome e a cidade da onde está falando. Lá no orelhão os números das prostitutas estão espalhados. Luana, Adriana, Carolina. Safada, Delicia, Gostosinha. Come com os olhos e sem talheres os rostos e pernas e pés e orelhas e melecas de nariz. A infantilidade faz o número da idade brotar no meio da testa. Não tenho RG, não sou de menor e vivo logo ali moço. O moço finge que acredita e pede: cuidado moleque. Mas é claro. Cuidado. Cuidado com os homens. Cuidado com os banheiros. Cuidado com as coisas que sufocam. Cuidado. Muito cuidado. Muito bem cuidado. Diz a mãe para o pai do menino. Ele finge que não escuta. Vai levar o filho consigo. Cuidado meu filho, a mãe chora. Cuidado com as bicicletas. Cuidado com as mulheres. Cuidado com o mundo. Ela o abraça. Me liga pelo orelhão que fica perto da casa de teu pai. Estarei esperando todos os dias. Cuidado com os números.

- Maria Aranha.

25/11/2015

Cuadrado.

Circunferências
Ao redor do corpo
Navegante
Sóbrio
Amador
Doente por
Amar
Dormir
Aspirinas
Vesícula
Inflamada
Doação de
Amarguras
Doação do próprio
Eu
Ulisses já sabia que saudade era

Saúde

24/11/2015

Resfriado.

Roça os mamilos rosados
nas costas nuas do amado
deitado no palco repleto de
própolis
é culpa do gotejar
contou 30 gotas
bebeu só 24
já bebi da urina que goteja dos seus cílios
gotas pequenas e densas que caem no chão
as flores amarelas estão em todo lugar
é só tylenol

- Maria Aranha

22/11/2015

Domingo, dia de almoço em família.


Hoje é domingo. Dia de almoço em família. Os maridos saem cedo de casa, depois de terem fodido a amante no banco de trás do carro no sábado à noite, e vão até o mercado mais próximo para comprar: ovos, leite, alface orgânico, meio quilo de filé de frango e alguns doces para as crianças que aguardam em casa. Os tios, tias, avós, avôs, primos e primas virão nessa tarde para comer a comida regada por lágrimas da esposa e a filhinha até usaria sua sandália nova, se não fossem pelas brigas cotidianas que fizeram o cachorro da família devorar cada tirinha da sandália. Um sorriso bonito pede a tia velha que tem nas mãos um celular novo que só comprou para mostrar para as primas que anda muito bem obrigada. A família se espreme na parede branca que tem no canto uma mancha de tinta guache azul que acarretou muitos puxões de orelha para o filho mais novo. Todos colocam no rosto um sorriso esquisito. Isso aí, essa é a famosa família brasileira que tem no canto dos lábios a maionese feita com ovos estragados porque o marido esqueceu-se de acordar cedo naquele dia, já que adormeceu no banco do carro e o cachorro foi até lá com as tiras da sandália e a mãe chorou em casa e a tia trouxe o celular e a foto não foi tirada. O menino pequeno acorda com um pesadelo. Ufa, hoje é segunda.

- Maria Aranha,

19/11/2015

Odores no sábado.

O cheiro de cigarro e sabão de coco embalam os sábados que escurecem pouco a pouco. A destilação dos cheiros é inexistente e por isso os odores penetram nos neurônios e assim, pouco a pouco, as almas saem dos corpos e passam a navegar nas ruas que perderam as luzes de natal porque foi nesse ano, em 2015, que o papai Noel morreu. Baleado pelos terroristas padeceu nas ruas de Paris e mais tarde, quando voltou para a sua cidade natal, Minas Gerais, teve seu corpo lavado pela lama. Culparam os pobres elfos e eles tentaram se proteger dizendo: a culpa é dos humanos. E foi assim que a guerra começou. Os amargurados corações preencheram todo o mundo afetando até as formigas trabalhadoras.

07/11/2015

Bebê do amor.


O cavalo me levou até você e eu desci sem medo do animal selvagem que não parava de correr ao seu redor. Levei uma pancada com as suas palavras e os olhares trocados na mesa são supérfluos com o passar do tempo. A imensidão do meu ser derrama nas bordas do teu corpo que está gélido e morto. De súbito vozes que se assemelham à sua surgem e eu não sei mais como identificar meu amor por você. A saudade derrama com as gotas de água cheias de cloro. Quero morrer afogada com as algas roçando nas minhas pernas nuas e sangrentas que passaram tardes e tardes expostas ao Sol. Sangue escorrendo, um quadro se formando e assim surge o nosso filho. Pequeno bebê que tem o cordão umbilical emaranhado em raízes podres da árvore que foi plantada pelo nosso amor. Morte.

- Maria Aranha,

02/11/2015

Tá difícil de entender.

Tá difícil de entender
Que quando o Sol nasce
E as espumas dos horizontes caem sobre o teu corpo
Deitado na lama
Escura
Preta
Cheia pedregulhos
É tudo questão de tempo
De percepção
De entender que nada é assim
Tudo não passa de um clarão
Um clarão que tomou a alma
Que tomou eu
Que me tomou
O português não ajuda
Muito menos o inglês, o francês, o espanhol, o alemão
Eu não sei idioma algum
Eu só sei o idioma da tua voz
Eu perdi as palavras
Eu perdi você
Eu me perdi
E agora nada mais adianta
O espelho
O reflexo
A voz
Você
As mensagens
De noite as lembranças
De manhã nada
vazio
Estar solitária
No caminhar
Num pisar dolorido
No joelho quebrado
Torto
Acabado
Cheio de problemas
E
Problemas
E sonos
E olheiras
E vontade de dormir
E dormir a tarde inteira
Agora
Nada mais adianta
Nada nunca adiantou
Só eu
Aqui
Sentada
Na cama
Parada
Gravando
Falando
Para as paredes
Que todo esse tempo
Tua presença era necessária
Agora já não é mais
Porque eu
já não existo mais

01/11/2015

Itinerários

Itinerários
repletos de poesias
que navegam pela mente
e as pessoas
todas
possuem a sua face
e quando acho que te encontrei
percebo que os olhos faltam no rosto do moço com o
teu
cabelo
e não é mais o teu cabelo lá
é apenas um amontoado de flores rosas
rosadas pelo amor
rosadas pelos tapas aflitos na cabine do banheiro
os espelhos quebrados
pintados com lágrimas
arranham minhas costas nuas
e a pele  branca torna-se azul
azul cor de
mar
oceano
você é
mar
oceano
imensidão
que naufraga minha alma

o navio ficou em casa