29/12/2016

24 de dezembro


24 de dezembro
alguns caroços de cereja em cima da mesa
decomposição constante de tudo aquilo que vive em silêncio
dedos ainda úmidos
a boca abre e fecha
em silêncio
pensa de novo

24 de dezembro 
não tem luz e não tem calor e não tem cheiro
de nada
                                                                                              aqui dentro (de mim)
vinte e quatro horas eu passo pensando em tudo que
forma teu corpo
carbono
caroços
laços
que se enroscaram e dão origem a sua voz
quase engasgada com certas coisas
quase prestes a gritar por causa de outras certas coisas

24 de dezembro
bate um vento frio
e o meu corpo que tá sempre nu pra vida que ta sempre livre de coisas que o
sufocam
(menos você)
arrepia
chega doer um pouquinho
eu encolho
                                                                                              chego tarde em mais nos teus pensamentos
o ar abafado da noite limita a transmissão de pedidos de socorro
e todos os dias eu tento te alcançar
seja pelas palavras
seja pelo choro
seja pelos dedos
que quando esticados não conseguem ultrapassar o clitóris
e tem algo de místico que ronda meu próprio corpo
porque ele se rende a certas mentiras
e luta contra certas verdades

24 de dezembro
percebo que as coisas que me formam são:
carbono
caroços
e laços
que se enroscam e não me deixam te enxergar com clareza

24 de dezembro
não sei mais qual é o seu gosto
e a água que lava meu corpo arranca de mim a trajetória dos teus dedos
essa pele branca disfarça a camada de pecado quase
invisível
a olhos nus
mas quando a gente tá junto não tem como negar
não tem como dizer que não percebeu
algo em mim se demonstrar
e cair
e expor
essa camada grossa de pensamentos e atitudes e medos
contraditórios
que se perdem nos meios mais obscuros das escrituras sagradas

de santo
nossos corpos não tem nada

24 de dezembro
faz muito tempo que não enxergo o mundo com os meus olhos miúdos
faz muito tempo que
                                               eu nem sei o que dizer
a idade nem pesa nos ombros a idade nem aparece no espelho a idade nem condiz
com os medos já impregnados na mente
com os medos que corroem os dedos
medo: morrer sem nunca ter me tido por completo
medo: morrer sem nunca ter me tido
medo: morrer sem nunca
medo: morrer
depois de você

24 de dezembro
os caroços de cereja caem no chão
(por causa do vento forte que vem da janela escancarada)
e eu até consigo escutar um sussurro seu dizendo
“tem certeza?”


24 de dezembro. A melhor resposta continua sendo o silêncio


(um poema da Aranha, minha outra metade)

22/12/2016

Um aviso rapidinho e um vídeo sobre japonês.


Faz muito tempo que eu não paro, sento e escrevo alguma coisa por aqui. Mas quando falo de escrever, não tô falando desses poemas ou textões que eu sempre (quase sempre) posto por aqui, tô falando de escrever sobre algumas coisas que me interessam. Eu comecei o blog com esse objetivo: falar sobre os livros, filmes, músicas e tantas outras coisas que eu gosto. Mas chegou aquela fase meio cult meio alternativa e daí eu arquivei tudo e comecei a postar só os meus poemas. Foi uma fase boa porque eu me dediquei bastante a isso. Passei a escrever mais. Me dei conta de que "olha só, talvez você tenha um dom". E tudo isso foi muito bom, mas a melhor parte foi ver os comentários de algumas pessoas. Sério, sou muito grata por esse carinho! Mas enfim... Digamos que, talvez, essa fase tenha passado e agora eu tô numa vibe de querer falar sobre tudo, de escrever sobre várias coisas, de perceber que escrever é mais do que colocar umas palavras bonitinhas no papel e mostrar pro mundo.

Enfim, eu acho que deu pra entender. Tô mudando e esse blog vai acabar mudando um pouco também e já vamos começar essa mudança agora mesmo. Pra quem não sabe eu estudo japonês e sou simplesmente apaixonada por esse idioma. Daí acabei decidindo gravar um vídeo dando umas dicas para quem quer aprender japonês porque eu percebi que não existe muito conteúdo sobre isso em português. E eu vou deixar o vídeo aqui em baixo pra quem quiser assistir. Eu espero que vocês gostem! Mas olha, já peço desculpas pelo áudio. Deu algum problema e o áudio ficou um pouco atrasado em algumas partes, então por favor tentem ao máximo ignorar isso. E eu prometo que não vai se repetir. Beijinhos da Gabi.

30/10/2016

Água.

você faz uma simples
corrente de água
virar mar
dentro de mim
                     tô tendo que segurar nas bordas do meu ser
                     pra não morrer afogada

16/10/2016

Sem título.

O que me preocupa são esses seus olhos
Eles me fazem perguntas sem pontos de interrogação

09/10/2016

Entrelaçar de dedos no meio da noite.

Esqueci de te dizer que
O momento mais feliz
Foi quando nos encontramos
Cruzando a vida um do outro
Sem nem antes perceber que o futuro
Tinha uma lâmpada prestes a queimar
Lá no fundo
[de nossas almas

Eu tive que te recriar na minha mente pra poder dormir bem
                Teu colo reconforta minhas dores
                Nas costas na alma nas juntas
                Nas vontades que surgem e      somem
                                                                                             
Teu toque arranca de mim
todas as vozes que ficaram
sufocadas
Teu toque arranca
                uma a uma
Todas as minhas vontades de gritar
Teu toque desarma a bomba que existe dentro de mim

Mas as vozes
Que não param de cochichar
Dão ao teu silêncio
O pior dos significados
E dão aos teus olhos cansados
Um espelho que reflete minha
Alma
                Escondida no canto do quarto
                Ninguém consegue ver
                               Meu choro inunda o travesseiro

E você não sabe
Que ando procurando teus sorrisos nos álbuns antigos que já estão amarelados
E você não sabe
Que ando procurando em mim mesma algum motivo pra dizer
Adeus
E você não sabe
Que cansei de me carregar sozinha e agora deixo pra você
o peso do meu medo

Os trilhos
Os metrôs
Os espaços que ocupamos
Agora carregam a lembrança de nossas vozes
                Que quando muito altas assemelham-se a um pedido de socorro
                E quando muito baixas assemelham-se a uma risada

o mundo nos quebrou e algumas partes tuas ainda encontram-se
                                                                                               perdidas

27/09/2016

essas janelas que
brilham longe de mim
que tipo de vida elas escondem?

luzes que brilham longe de mim
                [seriam as estrelas janelas brilhantes?
seriam a casa de alguém que não consegue dormir?]

minha janela é  miúda
só minhas mãos passam por ela
e passam porque precisam sentir a chuva
                cair
                               gota por
                                               gota

será que essas janelas brilhantes enormes distantes
te permitem tocar as nuvens
                uma por
                               uma
                                               ?

05/09/2016

21/08/2016

Verme.

O mundo que te
Engole
É o mesmo que te
Vomita
Com tanta ânsia que
Você parece um verme
Daqueles sem nome
Que só são encontrados com um
Grito
E por isso tornam-se
Mais assustadores

07/08/2016

Insisti.

insisti em meter meu coração
em um lugar nada promissor

insisti em meter meu coração
num lugar que era proibido
fechado
que só ficava aberto pra receber o
descarte

eu insisti em meter meu coração
onde não devia
e me fudi

agora escrevo

pra vê se essa porra vira alguma coisa

23/07/2016

Sem título.

suas mãos eram sujas de dor
dor profunda
dor que eu nunca tinha visto na minha vida inteira
dor que se expande quando em contato com a água das lágrimas

21/07/2016

Despedida.


sinto raiva
porque meus versos eles foram se
perdendo
no meio do caminho
e agora não me encontram
porque não existem placas
direções
sentidos corretos
dentro do meu ser

as artérias carregam
as palavras
para cada parte do meu corpo
mas elas estão tão bem escondidas
e quase diluídas no sangue
que não chegam
até meus dedos
                     [ou chegam e eu não percebo]

a tinta da caneta tá esperando

repousada em cima da folha em branco
ela quase grita de raiva

pepousada em cima da folha em branco
ela quase adormece
mas eu não posso

de noite a alma já perdeu tudo aquilo que a prende
e escrevo até os dedos sangrarem
até fazer com que cada letra do seu
nome
se torne mais uma poesia
fadada ao fracasso
porque eu já nem sei falar
eu já nem sei como abrir minha boca

as atitudes mecânicas vão aos poucos
perdendo a vontade de existirem
e cada passo parece carregar um
motivo
por trás
um impulso interno
uma faísca
e meu corpo, ele queima

a mente arde
chega estar travada por causa do peso das
memórias
e não tem nada que faça essa bagagem sumir

quando é que você vai ir embora?
me fala
me fala agora
eu preciso saber
todo o meu corpo precisa
treinar
a sua partida
todo o meu corpo precisa
aprender a lidar
com a sua falta

e minha mãe já me disse
e Deus já me pediu mais de dez vezes
e meu reflexo no espelho já se mostra cansado
mas os meus ouvidos
eles se fazem de desentendidos e
acreditam
eles possuem uma fé
I N A B A L Á V E L
mas eu não

e as mãos juntas
unidas
quase grudadas
numa reza sem fim
parecem envelhecer a cada Ave Maria
a cada amém
a cada contato mais intimo que tenho com minha
alma

nenhum livro sagrado vai me convencer
de que quando você for
meu silêncio vai ser mais feliz
minha alma mais liberta
meu sorriso mais verdadeiro

e é por isso que cansei
de pedir
de esperar
de rezar
por um final que já tá escrito
lá no céu

as três marias nunca vão deixar de brilhar
mesmo quando o céu insistir em ser mais escuro que a minha saudade antecipada

09/07/2016

Formigas.

I
dizem que os
psicopatas
matam primeiro
um animal
mas eu
que sempre
matei
formigas
nunca fui condenada

talvez seja
porque elas são
miúdas
como meninas
recém-nascidas
que morrem no
decorrer da
vida
sem ninguém escutar um
grito

II
- é mais fácil matar quem se mantém calado.
disse uma formiga para a outra e saiu
gritando

- mas quem quiser, finge que não escutou.
respondeu a outra e ficou lá
esperando a morte chegar

04/07/2016

Sem título.

a Lua parece
perdida
no meio das estrelas
e eu
que estou indo e
voltando
no balanço
tento alcança-lá
mas meus braços
(esses malditos braços)
são curtos demais
e não alcançam nem as
estrelas miúdas
que aos poucos
        uma a
                  uma
deixam de brilhar

e a Lua fica sozinha
no céu que foi engolido pela
escuridão
e eu fico sozinha
no planeta engolido pela
solidão

25/06/2016

Pés.


Acordei e quando me dei conta percebi que meus pés tinham sumido. Olhei em baixo da cama, nada. Olhei em cima do criado mudo, nada. Vasculhei o quarto inteiro e nada dos benditos pés. Por fim, quando estava um pouco cansada e já tinha assumido parcialmente minha derrota, fui em direção ao armário. A porta estava emperrada e insistia em não abri. Puxei com mais força e ela se abriu. Lá estavam eles. Amarrados em cordas como prisioneiros. Eu havia me esquecido que os tinha prendido na noite passada porque minha mente te nega, mas meus pés só conhecem o caminho que me leva até você.

23/06/2016

Sombras.

As sombras permanecem intactas. Não recebem nenhuma influência dos olhos marejados de lágrimas. Não recebem nenhuma influência do sorriso que vai de orelha a orelha. Não recebem nenhuma influência dos lábios rasgados que sangram quando o vento frio bate com mais intensidade que a própria vontade do individuo de viver. 
As sombras permanecem intactas.

13/06/2016

Sem título.

Meu corpo todo treme. Cadê teu abraço quentinho para aquecer minhas células mortas? Cadê teu abraço quentinho para aquecer o lado direito da minha face? O lado esquerdo apanhou de tanto que te amou. Cadê teu abraço quentinho para aquecer o meu sorriso? Ele perdeu o caminho quando encontrou no meio da avenida um corpo morto parecido com o teu. O trauma é eterno. Ninguém diz, mas eu sou a prova viva de que ele dura. E dura tempo suficiente para te fazer arrancar as lascas de madeira do armário com mais de dez anos. Dura tempo suficiente para fazer das tuas próprias mãos pás que cavam o peito, e no final arrancam o coração sem muito cuidado sem muito carinho. Não tem nada de precioso nessa merda que só bombeia sangue e leva, para cada parte do corpo em decomposição, uma lágrima engolida com catarro que escorre pelo nariz. Não tem nada de precioso nesse pedaço de carne, que se eu pudesse, serviria no jantar porque os impostos andam acima da minha própria capacidade de te esquecer.

09/06/2016

A falta de amor era eminente, vista até sem óculos de grau.

com os raios do sol atrapalhando seus
olhos azuis
a única coisa que eu era capaz de enxergar era
o reflexo dos meus poemas

o próprio destino tinha te feito poesia

mas eu queria que teu corpo
(repleto de peças que não tinham sido encaixadas
e que iam seguindo uma procissão atrás de ti)
dançasse conforme a minha música
que tocava bem calada
quase em segredo
dentro de mim

só que
tendo como plateia uma multidão que nem me conhecer
conhece
dançamos cantamos bebemos
aquilo que está disponível

O vazio

essa é a única coisa que nos oferecem quando o vento é mais frio

que as pontas do dedo,
                                   que as extremidades de um sentimento.

02/06/2016

Flor no asfalto.

no meio da multidão
eu
sozinha
apenas com meus olhos que carregam imagens
translúcidas
vejo teu olhar
que perdido
e sozinho
navega no meio das pessoas
(elas nem percebem que o teu silêncio
é o único capaz de me fazer
vomitar verbos adjetivos substantivos pronomes)

então
meus olhos
nus
sem nenhuma preocupação
fotografam teu rosto
com um zoom capaz de ver
as nuances do teu corpo nu que
em cima duma cama
(que não aguenta o peso de tuas ilusões)

torna-se frágil como uma flor recém desabrochada

23/05/2016

Apodrecer.

Eu sei que existe lá dentro uma vontade profunda de se lançar pela janela, não precisa negar. Até seu gato sabe disso. Ele mastiga a ração esperando para poder te assistir cair. E você bate a cabeça na parede, acha que o vizinho não escuta. Mas ele escuta. Escuta bem demais. Porque em um desses domingos, depois que voltou da casa de um amigo com a barriga cheia de cerveja, escutou os gemidos da mulher, que obviamente não eram com ele.

Você se sufoca com a água na hora do banho. Não percebe a presença de um rato. Ele tá te vendo pelo buraquinho do ralo. Você não consegue ver? Verdade, não se toma banho com óculos de grau e muito menos se quebra um desses. Ao meio. O celular também ta assim. Faltam folhas nos cadernos, falta cabelo nessa sua cabeça, falta carne no seu rosto. Feijão, arroz, carne e batata frita: vomitados. Os ossos já foram corroídos, você que não percebeu.

O passarinho já construiu um ninho nesse meio tempo e você nem consegue arrumar a cama. A louça suja ainda está na pia. Os livros empilhados. Tenta escalar, mas percebe que palavras não são capazes de suportar um fardo humano como você. Os contos de fadas passaram a mensagem errada para você e para toda nação de crianças que tiveram a honra, ou a desgraça, de ouvir um desses. Os pais são tão hipócritas que viram piadinha no meu ciclo de amizade. Todos eles morrem e deixam conosco um pedaço que aos poucos, apodrece. E vamos confessar: você já apodreceu por inteiro. Eu nem sabia que alguém como você duraria todo esse tempo. Acho que quem quer pular da janela é eu, não você.


Eu sou a parte que não apodreceu dentro de você (e que está tentando fugir)

16/05/2016

Tomar conta de todo o apartamento.

Silencia tua mente porque um vazio tão grande pode tomar conta de todo o apartamento. São 80 m² (no máximo) preenchidos com versos que dançam. Na cama, no sofá, na mesa da cozinha. Cada canto é o seu lar. Papinho furado esse de fugir de casa, porque minhas raízes estão aqui, grudadas no teto. E se ele insistir em uma mentira, e você começar a acreditar, o armário vai te lembrar dos gritos e choros e apertos que, durante muito tempo, roeram suas unhas do pé da mão da mente. É de extrema beleza quem preserva as unhas, mas é de um sentimento indescritível sentir a unha desgrudar da carne. Um menino muito sabido já falava sobre mágoa, mas não é possível entender aquilo que não se sente. São frases soltas sendo ditas, até chegar a um ponto que ele confessa que as frases eram da Clarice Lispector. Mas ele nunca leu nada dela. Dizer que “a vida é a vida” e atribuir essa frase à ela é tão engraçado que eu tento fazer o mesmo. “Eu sou um babaca” – SEU.NOME.

15/05/2016

Quem escreve?

quem escreve a nossa história é a
saudade
escreve escreve
escreve tanto que não sobra
coisa alguma que eu possa te
escrever

09/05/2016

Máquinas falham.

passo a cavoucar o meu ser tentando encontrar outra
fonte de
inspiração
água
(quem sabe)
mas não encontro nada
e concluo:
o ser humano é feito de vácuo
e cria
inventa
sonha
que carrega diversos pedaços de carne dentro de si
nomeia
estuda
corta-os em tantos pedaços para ter certeza de que são
reais
mas só se engana
(mentir para si próprio é a coisa mais
fácil
que já inventaram)
carregamos em nossas entranhas
uma máquina super hiper incrível
infalível
mas os pensamentos
mostram que
qualquer máquina pode deixar de
funcionar


Um aviso rapidinho. Deixei o link do meu perfil no Facebook para quem quiser entrar em contato ou mandar uma mensagem cheia de amor (ou não). Beijos e boa semana para todos!
Obs.: Eu ando esquecendo de responder alguns comentários, me desculpem por isso. Amo todos <3

04/05/2016

sem título

o mundo todo se acostumou com o cinza. o mundo todo se acostumou com as coisas que com o passar do tempo perdem a cor. o cabelo, as unhas pintadas com esmalte, as canetas que. secam. até a água seca, ela tá escassa e você já deve saber disso porque é o assunto do momento. reclamam da presidente, de como anda chovendo pouco, do verão que se foi, dos Homens que só causam decepções, da cor dos muros, das coisas que nos separam, mas eu nunca vi ninguém tentar pular ou pelo menos se prender no buraco que, é claro, existe no meio desse muro. sempre existem brechas e aprendi isso porque minha mãe me ensinou. entre o armário do quarto e a parede existia uma brecha. e eu me escondi lá. e assim não via: pessoas; o lixo na rua; os cachorros que me deixam com tanto medo; o sorvete escorrendo no canto da casquinha de sorvete que as crianças sempre estão devorando; senhoras nas praças lendo um livro; homens bem arrumados dentro do metrô. eu neguei toda realidade que já foi afirmada e reafirmada por filósofos, sociólogos, estudiosos do mundo. a faculdade da vida é a rua. eu li isso na porta do armário, mas mesmo assim, não saí de lá. casulos são mais aconchegantes. as borboletas são as únicas capazes de provar.

22/04/2016

Sem título.

já é de noite
e só é possível escutar a respiração
daqueles que adormecem
quando
o silêncio é
absoluto
mas as mentes não param de trabalhar
e a quietude é uma virtude
que
só quem vive com as camadas mais superficiais
da pele
consegue ter

12/04/2016

11/04/2016

Mentir arde.

eu tava prestes a te enviar uma mensagem
quando um clarão passou pela minha mente
ardeu

mentir arde mais
dizer que estou bem sem o seu toque,
arde
(mais que as feridas nos dedos causadas pelo alicate afiado)

acrescentar olhares que só dizem coisas ruins
é só uma forma de antecipar
o arder

e eu nem sei mais se arde porque é
verbo ou
substantivo

e eu nem sei mais
como é ver seu nome seguido de:

enviou uma mensagem

Cacos pequeninos.

tentei te negar poemas
mas uma
célula
uma única célula
ainda insiste em você
e em todo desconforto que
trouxe
como bagagem extra


meus poemas são
singelas tentativas de
colocar no rosto
um sorriso mais
meu
não seu

dividiram minha história:
antes de te conhecer
depois de te conhecer
retirar os cacos que
existem
dentro do meu ser
é o mais difícil porque
não existe
pinça
alguma
capaz de tirar os cacos
pequeninos
sem beliscar a pele

10/04/2016

Geometria que divide seres humanos.

seu olhar encontra-se
perdido
e peço desculpas
(na verdade não)
pelo meu jeito de dizer
certas verdades
escondidas em
poesia

e você sabe que
insisto em entender
as imagens que
seus poemas
concedem
um tapinha nas costas
para quebrar a barreira
entre nós do
is

eu a construí com
minhas próprias
mãos
braços
sangue

e Deus abençoou nossa
divisão
em retas paralelas que
nunca se encontram
(muito menos se esbarram)

29/03/2016

Insistindo.

lança duas pedras
em um muro
acreditando que
na segunda tentativa
o muro vai cair e
você vai ver
lá do outro lado
um riacho
com água
e peixes
e flores bonitas


isso até chega a acontecer
mas tratava-se de uma
miragem

a cada passo
a cada respiração ofegante
o riacho
e todas as coisas belas que tinha
se distanciavam
mas a sua sede
sua fome
sua necessidade de ver
pela última vez algo bonito
começaram a te roer
como um esquilo rói uma noz
...

acrescentaram
na miragem
seu dente canino
foi a única coisa que sobreviveu
ao desgaste

22/03/2016

Todo suco de laranja carrega um poema.

afirmar a idade
é fácil

é só pedir um suco de
laranja
perguntar se já veio com
açúcar
e começar a escrever
sobre ele

você

21/03/2016

Madrugada.

parte do meu cansaço
se aconchega
nas suas palavras
e na mais profunda
lembrança
do seu
sorriso

12/03/2016

Engolir.

Engole meu silêncio
Meu passado
Triturado

Engole com seu
Abraço
Seu toque
Minha parte que foi quebrada

Engole
(mesmo que com álcool)
Todos os picotes
Da minha poesia
Que foram feitos
Por dentes manchados com
Gloss labial
Por uma menina há seis anos

Atrás

23/02/2016

Seja pelo menos um bom ator.

mesmo usando as palavras mais
belas
só sabe declamar
mentiras
que nem bem ensaiadas foram

e o amor cego de um
esperma
tomou conta de mim
(por um tempo)
ter os olhos libertos
arde,
faz os meus pés formigarem

manter a distância é a melhor
resposta
e sinônimo

para o seu nome

15/02/2016

Virada de ano.

um arroz com
queijo
milho
ervilha
e outras coisas
serve para não deixar o álcool
fazer efeito
(aprendeu na aula de ciências)

os catorze anos
recém completados
gritam na corrente sanguínea
e principalmente no fígado
mas fazer o que?
é virada de ano
tem um amontoado de
lembranças
é preciso beber um pouco
para não ter de pesquisar no YouTube
"relaxamento para dormir"

não tem nem vinte anos
e já não consegue dormir a noite
porque de baixo  da cama
não existe um bicho papão
e sim, uma ansiedade do capeta

13/02/2016

Certidão de nascimento.

Minha certidão de nascimento
não tem informação alguma
mas o nome de minha mãe é poesia

12/02/2016

Banho com água quente.

logo cedo
às cinco da manhã
vejo pela
janela do banheiro
luzes
acessas
em formato
quadricular
mas a água
cai nos meus
olhos
e o quadrado
vira um
circulo
a luz se
apaga

08/02/2016

Como o Homem surgiu?

nasci do caos
como borboleta
enrolada (e presa)
no próprio casulo
tive as patas arrancadas
e o corpo rasgado
e transformaram meu nome em:

Homem

07/02/2016

Não tenho protetor solar.

O nariz vermelho
Tá sangrando por dentro
O Sol anda forte demais
E tentar fugir dele é como
Tentar fugir de
Você

06/02/2016

Com os pés na piscina.

é mais fácil
mentir
do que
admitir
que esperou por uma ligação
no ano novo
(não existem
tomadas
nas ondas
do
mar)

05/02/2016

Sobrancelha no cadáver.

tua sobrancelha levantada
guarda mais segredos que
o túmulo
revirado de um poeta
na madrugada do dia
dois
já que os fios que
brotam são de
tons e
cores diferentes
e até mesmo a tua pele
se aperta toda
pra não deixar que eles
caíam
mas é inevitável
tudo cai

até a poesia dele
caiu no caixão

28/01/2016

O zoológico tá dentro de mim.

tem uma aranha dentro de mim
tem uma selva instalada nas minhas
vias respiratórias
                                                    
tem um rugido pausado na minha garganta

os instintos continuam os mesmos
“olhe para os dois lados antes de atravessar”
“lave os pés antes de dormir”
“só beba água gelada”

ao quebrar nozes
um estalo no cérebro
e as artérias, veias, vasos
se fecham

o elevador dá uma parada brusca
ficamos presas mais uma vez
dentro de nós

mesmas

21/01/2016

Sementes.

lá fora tem um daqueles
daqueles seres que cruzam o oceano
com um simples
piscar de olhos
caem seus cílios
(não só um,
todos)
no chão
e no dia seguinte
olhos brotam
como se fossem
flores
e dentro das órbitas
um feto
em desenvolvimento
talvez eu o nomeie
com o seu
nome
se a inspiração não vier
e a saudade só aumentar

20/01/2016

(Sem titulo)

frieira entre os dedos do pé
não troca a roupa de cama
nem a roupa de corpo
o cabelo tá preso em um coque
e a mente em um livro
arrancando da carne
a unha do dedão do pé direito
(ou seria o esquerdo?)
faz as baratas se aproximarem
o pai dizia que elas amam o cheiro de
sangue
derramado
pingando


dormiu com a boca semi aberta
a baba escorreu

18/01/2016

Simples mundano.

em teus olhos
um
oceano
que sai
desbravando
e tomando conta de
ilhas
casas de senhoras idosas
vozes silenciadas

em teus olhos
um
deserto
que engole
todas as
gotas d’água
que ficam dando bobeira
no chão do
banheiro

em teus olhos
um
abraço apertado
capaz de curar
a ausência
a saudade
e capaz de
engolir
(de uma só vez)
toda a onipotência
dos deuses
do Olimpo

17/01/2016

Quinze anos.

Quantos
Urubus são necessários para
Ignorar as
Nuances de um
Zelo?
E quantos
Amores são
Necessários para
Omitir a
Saudade?

12/01/2016

Emoldurado.


Último ato.

Teu rosto masculinizado continua emoldurado naquele quadro, que mesmo tendo as bordas quebradas serve para imortalizar. E imortalizando tua verdadeira alma o quadro se torna aterrorizador, porque dentro dos olhos se podem ver um par de seios que gritam e que foram arrancando pelas próprias mãos com unhas pintadas de azul, cor de bebê.

Primeiro ato.

A mãe que acabou de parir o primogênito o nomeou de Gabriela. E a criança na maternidade se contorce e tenta de todo jeito arrancar o A que "se encaixa perfeitamente para ser o seu artigo", foi isso que a madrinha disse no dia do batismo. Tem um rostinho de menininha. Já dentro do útero a voz da mãe ecoava e dizia sempre: é menina. Menina?

Segundo ato.

Quando crescida carregava dentro do estômago o sangue da menstruação. Arrancar os lábios com as unhas não adiantaria, seria preciso parir o útero e beber do sangue que o revestia. Cada manhã um gole. E a ânsia só aumentava. Ainda sentia o calor por ser mulher. Teria de arrancar da cabeceira da cama as letrinhas de seu nome que tinham sido lá colocadas por volta de catorze anos atrás. Mas essas letras já não tinham gênero nenhum depois de terem sido pronunciadas diversas vezes. Gabriela. Gabriela. Gabriela. E afirmar olhando para o espalho, que mesmo com seios as coisas ficariam bem, não adiantava. A tesoura já tava na mão e o cabelo cortado já estava por todo o corpo. Até nos seios. Que se foram. Que foram arrancados.

Terceiro ato.

Foi até uma loja, comprou uma blusa verde, um olhar fechado e uma boca só abria quando era necessário. Mas o nome continuava o mesmo. O endereço também. Acredite, até a alma continuava a mesma.

Penúltimo ato.


Tirando uma foto perto de casa emoldurou no quadro que ficava na sala e mostrou para mãe. A alma do pai, no meio da madrugada, se encarregou de quebrar as pontas do quadro e atear fogo no corpo da filha. Os seios foram os únicos que saíram ilesos, porque estavam pendurados do lado de fora da janela.

- Maria Aranha

11/01/2016

Sintomas.

é amor
essa dor de cabeça

é saudade
essa tosse carregada

é vírus
bactéria
doença
o teu nome

é morte

a tua chegada

08/01/2016

Afogue.

Afogue com água
as vozes que
dançam ciranda
na frente da tua casa

Afogue com cerveja
os seres que
tomaram suas memórias

Afogue com poesia
a vida
porque eu já me afoguei
na tua
voz

06/01/2016

Salomão.

E todo
Tornado
Torce
O nariz quando
Raios se
Espremem entre
Moradas
Enumeradas
De acordo com
Exigências de
Imperadores que já
Reinaram por aqui, mas foram
Os tornados que mataram

Salomão e todos os outros reis do mundo

04/01/2016

Entre a cama e a parede.

A dor que arrebata teu corpo te deixa bamba e o buraco entre a cama e a parede é um abismo. Se joga lá e encontra os fios de cabelo que foram arrancados, os pedaços de unhas que foram roídas e gotas de sangue que pingaram dos dedos sem cutícula alguma, já que foram mordidas arrancadas engolidas. Cuspia na cabeceira da cama achando que ninguém descobriria, mas não foi que várias manchas surgiram? E mesmo esfregando com bucha e sabão não saíram. As manchas continuam lá. E o quarto está dentro de cada mancha. Cada mancha de lágrima no colchão.

03/01/2016

Mochila.

No teu corpo
Invasões
Constantes de
Olhares que
Lambem
A alma
Deixando vestígios de
Saliva na mandíbula
Aberta
Gritando
Ninguém escuta
Então se cala porque
Línguas foram cortadas
Línguas foram arrancadas
Inusitados olhares podem
Correr
Artérias
Sêmen
Alma, então

Leve seus olhos em uma mochila