28/01/2016

O zoológico tá dentro de mim.

tem uma aranha dentro de mim
tem uma selva instalada nas minhas
vias respiratórias
                                                    
tem um rugido pausado na minha garganta

os instintos continuam os mesmos
“olhe para os dois lados antes de atravessar”
“lave os pés antes de dormir”
“só beba água gelada”

ao quebrar nozes
um estalo no cérebro
e as artérias, veias, vasos
se fecham

o elevador dá uma parada brusca
ficamos presas mais uma vez
dentro de nós

mesmas

21/01/2016

Sementes.

lá fora tem um daqueles
daqueles seres que cruzam o oceano
com um simples
piscar de olhos
caem seus cílios
(não só um,
todos)
no chão
e no dia seguinte
olhos brotam
como se fossem
flores
e dentro das órbitas
um feto
em desenvolvimento
talvez eu o nomeie
com o seu
nome
se a inspiração não vier
e a saudade só aumentar

20/01/2016

(Sem titulo)

frieira entre os dedos do pé
não troca a roupa de cama
nem a roupa de corpo
o cabelo tá preso em um coque
e a mente em um livro
arrancando da carne
a unha do dedão do pé direito
(ou seria o esquerdo?)
faz as baratas se aproximarem
o pai dizia que elas amam o cheiro de
sangue
derramado
pingando


dormiu com a boca semi aberta
a baba escorreu

18/01/2016

Simples mundano.

em teus olhos
um
oceano
que sai
desbravando
e tomando conta de
ilhas
casas de senhoras idosas
vozes silenciadas

em teus olhos
um
deserto
que engole
todas as
gotas d’água
que ficam dando bobeira
no chão do
banheiro

em teus olhos
um
abraço apertado
capaz de curar
a ausência
a saudade
e capaz de
engolir
(de uma só vez)
toda a onipotência
dos deuses
do Olimpo

17/01/2016

Quinze anos.

Quantos
Urubus são necessários para
Ignorar as
Nuances de um
Zelo?
E quantos
Amores são
Necessários para
Omitir a
Saudade?

12/01/2016

Emoldurado.


Último ato.

Teu rosto masculinizado continua emoldurado naquele quadro, que mesmo tendo as bordas quebradas serve para imortalizar. E imortalizando tua verdadeira alma o quadro se torna aterrorizador, porque dentro dos olhos se podem ver um par de seios que gritam e que foram arrancando pelas próprias mãos com unhas pintadas de azul, cor de bebê.

Primeiro ato.

A mãe que acabou de parir o primogênito o nomeou de Gabriela. E a criança na maternidade se contorce e tenta de todo jeito arrancar o A que "se encaixa perfeitamente para ser o seu artigo", foi isso que a madrinha disse no dia do batismo. Tem um rostinho de menininha. Já dentro do útero a voz da mãe ecoava e dizia sempre: é menina. Menina?

Segundo ato.

Quando crescida carregava dentro do estômago o sangue da menstruação. Arrancar os lábios com as unhas não adiantaria, seria preciso parir o útero e beber do sangue que o revestia. Cada manhã um gole. E a ânsia só aumentava. Ainda sentia o calor por ser mulher. Teria de arrancar da cabeceira da cama as letrinhas de seu nome que tinham sido lá colocadas por volta de catorze anos atrás. Mas essas letras já não tinham gênero nenhum depois de terem sido pronunciadas diversas vezes. Gabriela. Gabriela. Gabriela. E afirmar olhando para o espalho, que mesmo com seios as coisas ficariam bem, não adiantava. A tesoura já tava na mão e o cabelo cortado já estava por todo o corpo. Até nos seios. Que se foram. Que foram arrancados.

Terceiro ato.

Foi até uma loja, comprou uma blusa verde, um olhar fechado e uma boca só abria quando era necessário. Mas o nome continuava o mesmo. O endereço também. Acredite, até a alma continuava a mesma.

Penúltimo ato.


Tirando uma foto perto de casa emoldurou no quadro que ficava na sala e mostrou para mãe. A alma do pai, no meio da madrugada, se encarregou de quebrar as pontas do quadro e atear fogo no corpo da filha. Os seios foram os únicos que saíram ilesos, porque estavam pendurados do lado de fora da janela.

- Maria Aranha

11/01/2016

Sintomas.

é amor
essa dor de cabeça

é saudade
essa tosse carregada

é vírus
bactéria
doença
o teu nome

é morte

a tua chegada

08/01/2016

Afogue.

Afogue com água
as vozes que
dançam ciranda
na frente da tua casa

Afogue com cerveja
os seres que
tomaram suas memórias

Afogue com poesia
a vida
porque eu já me afoguei
na tua
voz

06/01/2016

Salomão.

E todo
Tornado
Torce
O nariz quando
Raios se
Espremem entre
Moradas
Enumeradas
De acordo com
Exigências de
Imperadores que já
Reinaram por aqui, mas foram
Os tornados que mataram

Salomão e todos os outros reis do mundo

04/01/2016

Entre a cama e a parede.

A dor que arrebata teu corpo te deixa bamba e o buraco entre a cama e a parede é um abismo. Se joga lá e encontra os fios de cabelo que foram arrancados, os pedaços de unhas que foram roídas e gotas de sangue que pingaram dos dedos sem cutícula alguma, já que foram mordidas arrancadas engolidas. Cuspia na cabeceira da cama achando que ninguém descobriria, mas não foi que várias manchas surgiram? E mesmo esfregando com bucha e sabão não saíram. As manchas continuam lá. E o quarto está dentro de cada mancha. Cada mancha de lágrima no colchão.

03/01/2016

Mochila.

No teu corpo
Invasões
Constantes de
Olhares que
Lambem
A alma
Deixando vestígios de
Saliva na mandíbula
Aberta
Gritando
Ninguém escuta
Então se cala porque
Línguas foram cortadas
Línguas foram arrancadas
Inusitados olhares podem
Correr
Artérias
Sêmen
Alma, então

Leve seus olhos em uma mochila