23/05/2016

Apodrecer.

Eu sei que existe lá dentro uma vontade profunda de se lançar pela janela, não precisa negar. Até seu gato sabe disso. Ele mastiga a ração esperando para poder te assistir cair. E você bate a cabeça na parede, acha que o vizinho não escuta. Mas ele escuta. Escuta bem demais. Porque em um desses domingos, depois que voltou da casa de um amigo com a barriga cheia de cerveja, escutou os gemidos da mulher, que obviamente não eram com ele.

Você se sufoca com a água na hora do banho. Não percebe a presença de um rato. Ele tá te vendo pelo buraquinho do ralo. Você não consegue ver? Verdade, não se toma banho com óculos de grau e muito menos se quebra um desses. Ao meio. O celular também ta assim. Faltam folhas nos cadernos, falta cabelo nessa sua cabeça, falta carne no seu rosto. Feijão, arroz, carne e batata frita: vomitados. Os ossos já foram corroídos, você que não percebeu.

O passarinho já construiu um ninho nesse meio tempo e você nem consegue arrumar a cama. A louça suja ainda está na pia. Os livros empilhados. Tenta escalar, mas percebe que palavras não são capazes de suportar um fardo humano como você. Os contos de fadas passaram a mensagem errada para você e para toda nação de crianças que tiveram a honra, ou a desgraça, de ouvir um desses. Os pais são tão hipócritas que viram piadinha no meu ciclo de amizade. Todos eles morrem e deixam conosco um pedaço que aos poucos, apodrece. E vamos confessar: você já apodreceu por inteiro. Eu nem sabia que alguém como você duraria todo esse tempo. Acho que quem quer pular da janela é eu, não você.


Eu sou a parte que não apodreceu dentro de você (e que está tentando fugir)

16/05/2016

Tomar conta de todo o apartamento.

Silencia tua mente porque um vazio tão grande pode tomar conta de todo o apartamento. São 80 m² (no máximo) preenchidos com versos que dançam. Na cama, no sofá, na mesa da cozinha. Cada canto é o seu lar. Papinho furado esse de fugir de casa, porque minhas raízes estão aqui, grudadas no teto. E se ele insistir em uma mentira, e você começar a acreditar, o armário vai te lembrar dos gritos e choros e apertos que, durante muito tempo, roeram suas unhas do pé da mão da mente. É de extrema beleza quem preserva as unhas, mas é de um sentimento indescritível sentir a unha desgrudar da carne. Um menino muito sabido já falava sobre mágoa, mas não é possível entender aquilo que não se sente. São frases soltas sendo ditas, até chegar a um ponto que ele confessa que as frases eram da Clarice Lispector. Mas ele nunca leu nada dela. Dizer que “a vida é a vida” e atribuir essa frase à ela é tão engraçado que eu tento fazer o mesmo. “Eu sou um babaca” – SEU.NOME.

15/05/2016

Quem escreve?

quem escreve a nossa história é a
saudade
escreve escreve
escreve tanto que não sobra
coisa alguma que eu possa te
escrever

09/05/2016

Máquinas falham.

passo a cavoucar o meu ser tentando encontrar outra
fonte de
inspiração
água
(quem sabe)
mas não encontro nada
e concluo:
o ser humano é feito de vácuo
e cria
inventa
sonha
que carrega diversos pedaços de carne dentro de si
nomeia
estuda
corta-os em tantos pedaços para ter certeza de que são
reais
mas só se engana
(mentir para si próprio é a coisa mais
fácil
que já inventaram)
carregamos em nossas entranhas
uma máquina super hiper incrível
infalível
mas os pensamentos
mostram que
qualquer máquina pode deixar de
funcionar


Um aviso rapidinho. Deixei o link do meu perfil no Facebook para quem quiser entrar em contato ou mandar uma mensagem cheia de amor (ou não). Beijos e boa semana para todos!
Obs.: Eu ando esquecendo de responder alguns comentários, me desculpem por isso. Amo todos <3

04/05/2016

sem título

o mundo todo se acostumou com o cinza. o mundo todo se acostumou com as coisas que com o passar do tempo perdem a cor. o cabelo, as unhas pintadas com esmalte, as canetas que. secam. até a água seca, ela tá escassa e você já deve saber disso porque é o assunto do momento. reclamam da presidente, de como anda chovendo pouco, do verão que se foi, dos Homens que só causam decepções, da cor dos muros, das coisas que nos separam, mas eu nunca vi ninguém tentar pular ou pelo menos se prender no buraco que, é claro, existe no meio desse muro. sempre existem brechas e aprendi isso porque minha mãe me ensinou. entre o armário do quarto e a parede existia uma brecha. e eu me escondi lá. e assim não via: pessoas; o lixo na rua; os cachorros que me deixam com tanto medo; o sorvete escorrendo no canto da casquinha de sorvete que as crianças sempre estão devorando; senhoras nas praças lendo um livro; homens bem arrumados dentro do metrô. eu neguei toda realidade que já foi afirmada e reafirmada por filósofos, sociólogos, estudiosos do mundo. a faculdade da vida é a rua. eu li isso na porta do armário, mas mesmo assim, não saí de lá. casulos são mais aconchegantes. as borboletas são as únicas capazes de provar.