25/06/2016

Pés.


Acordei e quando me dei conta percebi que meus pés tinham sumido. Olhei em baixo da cama, nada. Olhei em cima do criado mudo, nada. Vasculhei o quarto inteiro e nada dos benditos pés. Por fim, quando estava um pouco cansada e já tinha assumido parcialmente minha derrota, fui em direção ao armário. A porta estava emperrada e insistia em não abri. Puxei com mais força e ela se abriu. Lá estavam eles. Amarrados em cordas como prisioneiros. Eu havia me esquecido que os tinha prendido na noite passada porque minha mente te nega, mas meus pés só conhecem o caminho que me leva até você.

23/06/2016

Sombras.

As sombras permanecem intactas. Não recebem nenhuma influência dos olhos marejados de lágrimas. Não recebem nenhuma influência do sorriso que vai de orelha a orelha. Não recebem nenhuma influência dos lábios rasgados que sangram quando o vento frio bate com mais intensidade que a própria vontade do individuo de viver. 
As sombras permanecem intactas.

13/06/2016

Sem título.

Meu corpo todo treme. Cadê teu abraço quentinho para aquecer minhas células mortas? Cadê teu abraço quentinho para aquecer o lado direito da minha face? O lado esquerdo apanhou de tanto que te amou. Cadê teu abraço quentinho para aquecer o meu sorriso? Ele perdeu o caminho quando encontrou no meio da avenida um corpo morto parecido com o teu. O trauma é eterno. Ninguém diz, mas eu sou a prova viva de que ele dura. E dura tempo suficiente para te fazer arrancar as lascas de madeira do armário com mais de dez anos. Dura tempo suficiente para fazer das tuas próprias mãos pás que cavam o peito, e no final arrancam o coração sem muito cuidado sem muito carinho. Não tem nada de precioso nessa merda que só bombeia sangue e leva, para cada parte do corpo em decomposição, uma lágrima engolida com catarro que escorre pelo nariz. Não tem nada de precioso nesse pedaço de carne, que se eu pudesse, serviria no jantar porque os impostos andam acima da minha própria capacidade de te esquecer.

09/06/2016

A falta de amor era eminente, vista até sem óculos de grau.

com os raios do sol atrapalhando seus
olhos azuis
a única coisa que eu era capaz de enxergar era
o reflexo dos meus poemas

o próprio destino tinha te feito poesia

mas eu queria que teu corpo
(repleto de peças que não tinham sido encaixadas
e que iam seguindo uma procissão atrás de ti)
dançasse conforme a minha música
que tocava bem calada
quase em segredo
dentro de mim

só que
tendo como plateia uma multidão que nem me conhecer
conhece
dançamos cantamos bebemos
aquilo que está disponível

O vazio

essa é a única coisa que nos oferecem quando o vento é mais frio

que as pontas do dedo,
                                   que as extremidades de um sentimento.

02/06/2016

Flor no asfalto.

no meio da multidão
eu
sozinha
apenas com meus olhos que carregam imagens
translúcidas
vejo teu olhar
que perdido
e sozinho
navega no meio das pessoas
(elas nem percebem que o teu silêncio
é o único capaz de me fazer
vomitar verbos adjetivos substantivos pronomes)

então
meus olhos
nus
sem nenhuma preocupação
fotografam teu rosto
com um zoom capaz de ver
as nuances do teu corpo nu que
em cima duma cama
(que não aguenta o peso de tuas ilusões)

torna-se frágil como uma flor recém desabrochada